8 de novembro de 2011

Quero a minha mãe.


Sabe, as mães deveriam durar para sempre. Sempre, para sempre, repito, sempre. Seus olhares cautelosos, sedosos, zelosos, a velar os sonos, os sonhos, os enganos. A cuidar das vestes, dos ciúmes, dos amores.
Mãe que é mãe é assim: patrimônio histórico da humanidade de um só. Paro por um minuto, olho e vejo o dito, analiso minuciosamente cada palavra: é muito egoísmo, meu Deus, prender uma vida a outra, com a pretensão de simplesmente ser servido de seus favores. Mas, é não menino. É bom demais ser mimado, cuidado, zelado. E essa falsa sensação de que o mundo todo piora com a sua ausência.
Passaram dias, meses, anos. Passou, tudo passa, menos a saudade.
Zelosa, percorro em mim as centelhas de vida que escorrem de minhas lembranças. Doces, doces recordações de um tempo em branco e preto, tempo este que colore de azul anil a esperança de dias melhores.
E passeia em mim a essência do amar, mas ainda enraizadas as pretensões infantis de permanência eterna do que se foi, de quem partiu. E se foi, na doce melancolia destes dias de outono, nas folhas caídas, no problemas mal resolvidos, nos assuntos inacabados lá está: seria melhor se estivesse aqui, penso eu, neste engano bom trazido pela sensação de proteção perdida.
O dia começa. O sol nasceu, mas do que vejo, sinto! A audácia dos encantos de permanecer de pé durante todo o dia, e adormecer feliz na noite, no perdão dos sinceros e contritos. E na vida, nos percalços, falto os ensaios das minhas esquetes, nas demoras de minhas perfeições. Mas igual Adélia, tem horas que vem tudo de fora, mas, na certeza da natureza de meus instintos, sei que na hora certa, o certo sei fazer, fazendo bem feito.

"Tinha vantagens não saber do inconsiente.
Vinha tudo de fora!
Maus pensamentos, tentações, desejos...
Contudo, ficar sabendo foi melhor.
Estou mais densa: tenho âncora.
Paro em pé por mais tempo.
De vez em quando, ainda fico oca.
O corpo hostil e Deus bravo, mas passa logo!
Como um pato sabe nadar sem saber,
sei sabendo que na hora "H" nado com desenvoltura...
Guardo sabedorias no almoxarifado".
* Adélia Prado.


30 de outubro de 2011

De volta ao início


Os começos. Passam desapercebidos por mim. Vão, como poeira e vento que passa, na estrada percorrida. Passam os livros iniciados, os programas começados, os passos. Passam, desapercebidos, passam.
Voam tempos, voam pensamentos. Olhar desatento é igual a chuva passageira: só se atém ao que quer, só molha onde não deve.
E assim passa: a palavra, o olhar. Passando, passou, e diante meus olhos, à beira da vida.
Quando vejo, estou no envolto, meio solto, de pontas desatadas.
De risonho, o presente se mostra com futuro, num passado desapercebido, num futuro prometido e cheio de vida, e de possibilidades.
Esse, não passou, graças a Deus!
Mas passou o dia, passou o verão, o inverno, o outono, a primavera, o verão... Passou.
Adormeceu o que devia, acordado está hoje o assunto presumido, do inverno na intenção, no verão exposto, como biquine guardado no fundo da gaveta.
E vejo: a prece apressando a pressa de ter. Ter, muito além de possuir, muito mais que adquirir. No âmago da existência: ser. Em extensões pretendidas, mas esquecido esteve o penar nas sórdidas entrelinhas dos inícios.
Por isso, é preciso voltar. Reorganizar as gavetas, olhar paulatinamente cada vão detalhe de um passado que carrega em si os entremeios de um presente, e as histórias de um futuro completo em saber-se percebido.
Inicio novamente o livro da vida. Dessa vez mais atenta, aos detalhes, aos meus detalhes, não mais em mim, mas dentro de mim.

20 de agosto de 2011

O amor quer falar


O amor quer falar, quer gritar, que ser, mas não pode.
O amor faz esforço, manda flores, faz biquinho.
O amor manda sinais, mas iludido se deitou.
Acalmou-se insone, pesadelos em claro...
O amor adoeceu.
Resistiu, desistiu, tornou a crer.
Persistiu, reagiu, adormeceu...
O amor mandou lembranças, renegou crenças, foi ser feliz!
Ah, o amor...
Nunca esqueceu, aquele que lhe deu alegrias e esperanças...
Por elas o amor voltou, no retrato que passou,
Em branco e preto,
No verde renasceu, em flor desabrochou,
Tornou-se jardim, abandono sem fim, à seus cuidados sim,
Faz favor.

5 de agosto de 2011

Esvaziar-se

As obras de Deus escorrem dentro de mim como a lágrima percorre a face até cair nos lábios. Alcança cada centímetro das expressões decorrentes do sentimento detido ao peito e expressado na temperança do olhar saudoso. Relembro, com graça e maestria, os poemas com que outrora me embriaguei e percebi: essa sou eu.
Passa além de mim essa consciência incompreendida, essa sensação revel ao mundo, constante em querer um pouco mais. Exige-se muito mais, quereres além mar...
Esses desejos de constantes transmutam em fascínio pela arte e do que dela se desprende. E prossigo, no prodigioso labor do poeta: entregar respostas às perguntas da alma. Decerto, a filosofia da alma transcende o natural saber e querer razão, só se compreende peças de uma natureza infinita em possibilidades ñum quebra-cabeças que sempre faltam algumas peças.
E prossigo, num encanto saboroso, maravilhada por essa magia de decifrar os sentimentos que a própria razão desconhece.

"Louvado seja Deus, meu Senhor
Por que meu coração está cortado a lâmina
Mas sorrio no espelho ao que
À revelia de tudo se promete;
Por que sou desgraçado
como um homem tangido para a forca,
Mas me lembro de uma noite na roça
O luar nos legumes e um grilo
Minha sombra na parede.

Louvado sejas por que eu quero pecar
contra o afinal sítio aprazível dos mortos,
Violar as tumbas com o arranhão das unhas,
Mas vejo a tua cabeça pendida
e escuto o galo cantar
Três vezes em meu socorro.

Louvado sejas, porque a vida é horrível
Porque mais é o tempo que eu passo
Recolhendo os despojos
- velho ao fim de uma gerra como uma cabra -
Mas limpo os olhos e o muco de meu nariz
Por um canteiro de grama.

Louvado sejas por que eu quero morrer, mas tenho medo
E insisto em esperar o prometido

Uma vez quando eu era menino
Abri a porta de noite
A horta estava branca de luar
E acreditei, sem nenhum sofrimento:
LOUVADO SEJAS!!!!"
*Bendito, Adélia Prado.

2 de agosto de 2011

Toda palavra sangra


O meu coração sangra.

Chora de saudade de sentimentos que nunca viveu. Tem ânsias de causas, coisas, vivências, próprias de suas inseguras transgressões. Imagina, sonha, viaja por terras desconhecidas, outras paragens, sempre desejadas, sempre perdoadas.
De vez em dor e grão.
Paixão.
Coração que sangra de saudade.
Toda palavra sangra.
Saudade de cor, saudade de amor, sentimentos verdadeiros que brotam como flores em início de primavera: a espera alcança a esperança dos sacrifícios da virtude.
A humanidade reclama, quer fazer valer suas regalias, direitos advindos do livre arbítrio.
O coração ressoa as vicissitudes.
Que quero eu?
Que devo eu?
Que faço eu?
Nada.
Continuo a seguir meu caminho constante:
ora sim,
ora nem tanto,
ora sonhando,
ora acordando,
ora pisando firme,
ora cambaleando...
Ora acertando,
Ora errando.
De hora em hora,
Minuto por minuto,
Constância e relevância
Sacrifícios.
Alegrias! Ah, sim... muitas alegrias!
E ficou.
Alegria ressoou.
Perdoou.
Pacientemente acordou de um sono profundo... profundo como a fé.
Escarneceu sem dó nem piedade a pobre agonia, que saiu desconfiada.
Percorri todos os caminhos,
Cheguei aqui à pé.
Em todo momento, inteira.
Em todo instante, verdadeira.       
Pois é na verdade de minhas demoras que permaneço de pé, sobre toda circunstância, e nenhum medo ou vaidade poderá carregar de mim o sentimento de ser de Deus.
E busco.
E percorro.
As instâncias,
as ânsias,
na calma da alma que espera,
com a paciência de um amante.
Que se delonga,
Como um artista à sua obra.
Que se redime.
Como um povo aos pés da Cruz.

“Buscai primeiro o Reino de Deus e a Sua Justiça.. e tudo o mais vos será acrescentado.”

20 de julho de 2011

Sempre serei teu amigo!



Hoje, dia do amigo. Abri a página inicial do meu msn, logo após olhar meus emails e vi a seguinte mensagem: "Hoje: dia do amigo! Você é um bom amigo ou só um amigo superficial? Faça o teste!" Isso instigou-me, não pelo teste, mas por um teste ter a capacidade de definir a essência do que desdobra-se a partir do meu doar. Não, não acredito que meros "sim" e "não" tenham a capacidade de discernir meus sinceros sorrisos, abraços, súplicas, carinhos, segredos, surdinas, a cumplicidade partilhada entre os meus e quem Deus me deu aos cuidados.
Bom, em sendo hoje o dia do amigo, que pensava ser na segunda-feira a bem da verdade, a superficialidade delatada pelo teste me acreditou novamente, me recolocou em meu lugar na vida dos meus: nunca fui muito de parar nas estatísticas, sempre tenho que conferir suas origens para me sentir segura das decisões que tomo na vida. Superficial? Não acredito. Não creio que uma amizade tenha a capacidade de ser superficial, pelo menos não as minhas amizades, meus amigos, visto que meu eu não se aquieta em plenos horizontes, sempre busca as escaladas dos picos mais altos.
As orações que se desprendem de meu coração exultam de alegria pela dádiva que hoje consigo vislumbrar de minhas percepções. O desenrolar das desenvoltas partilhas de vida, esperançando em mim as vivências de um passado rico de emoções, um presente contagiado de alegria e um futuro repleto de possibilidades... Meus amigos o sabem bem o que são pra mim, nas infinitas escavações que fazemos de nossas esperanças, sonhos, compartilhando o amor que é semeado em nós, por nós! A todos os meus amigos, FELIZ NOSSO DIA hoje, sempre e eternamente!

"Não vou te deixar, vou te amar! Estarei sempre contigo! Seja inverno ou verão, alegra o teu coração, serei o teu abrigo! Cada lágrima que cai, fortalece-nos mais, sempre serei teu amigo!"
*Walmir Alencar.

9 de julho de 2011

Plié


Sempre quis ser bailarina. O modo como elas passeiam pelo palco, quase sem tocar o chão sempre me fascinou. É como um passeio só pelas coisas boas da vida, na encarnação da alegria pura e simples. Toda a idéia de estréia, glamour e simplicidade com que desempenham seus papéis, a leveza e sutileza de seus detalhes, e firmeza de seus passos me levam a sonhar com o céu. Sabe, aquelas coisas que tem cheiro e força de te carregar para longe de tudo, onde nada nem ninguém tem o poder de te alcançar.
Na infância tentei fazer ballet mas tudo era muito maçante, muito sacrifício, dor. Lembro que dada feita o professor sentou em cima de mim para que eu pudesse ter elasticidade, própria das bailarinas, e chorei, chorei, chorei, pois doeu consideravelmente e nunca fui muito amiga da dor: no mínimo sinal de sacrifício, gritava pela minha mãe, que sempre me socorria. Lembro reticente do escandâlo que ela fez com o professor, e o que provavelmente ela deva ter me dito à época: você é frágil demais, e esses professores não respeitam, fazem de tudo para as alunas aprenderem.
Percorro os espaços da minha mente, e meu coração divaga pelas possibilidades de minhas demoras. Meus verbos em tempos diferentes se acomodam em meus pensamentos, e me levam a olhar os avessos das vitórias. Pesar que os louros são colhidos após os ensaios intermináveis e os gelos nos pés cansados. Ser bailarina sempre foi um sonho, o caminho é que desistiu em mim: era coisa demais para coisa de menos. As minhas infâncias não me permitiam enxergar além sofrimento, além dor. Meus conceitos de prematuros não renasceram em flor, rosa que desabrocha na primavera, preferiram ser abortados na calada da noite, como sonhos impróprios e evasivos. Assim, vejo muito em minha vida: desisto fácil do difícil, e o que demora não se demora em mim.
Assim, recolhi em meu ser a significância das minhas importâncias. Decerto, renovei em mim as verdades que me impulsionam na vida: as pessoas, os desejos, os amores, os objetivos... Demoro-me em perceber quem sou e o que quero para não perder mais tempo no que admiro, mas não me serve. Como com o ballet: a beleza de seus encantos cegou-me para as minhas aptidões e dons, minhas ânsias pela vida. Soubesse de pequena o que ser quando grande, grande seria quando pequena fui. Assim, recolho de meus pensamentos o que quero impulsionar e apaixonar-me na vida: amante virarei de meus encantos, meus sonhos, seduzida pelos olhos Daquele que me olha. E recolho, paulatinamente, as inconstâncias do ser, ser pra sempre.