8 de fevereiro de 2012

Palavras para o esquecimento


Te esquecer não só por um momento.
Te esquecer, ainda mais que por uma vida inteira.
Te esquecendo, te esquecer.
Te querendo, não mais esperando em estradas fora da vista.
Te esperando,  te esqueci.
Te esquecendo, me amei.

9 de novembro de 2011

Pedra no caminho


As frases se mostram em santos, e não passam de linhas, em amotoado de palavras com sentido e sem sentimento em mim. Não se demoram em suas intenções, não se prologam em virtudes, não se apoderam de minh'alma. Apenas passam, como uma bela paisagem na estrada que percorro "às carreiras". E essa pressa? Só Deus. Só Ele sabe as urgências que insistem em concorrer com a minha paz. Enquanto isso, as atitudes sem sentido irritam até o esgotar de toda a minha impaciência, visto que a paciência já se foi a muito tempo, como um teste ao qual sou fadada ao fracasso, sempre.
E o tempo. Castiga soberano e imponente todos os sonhos e projetos, sonhos meus. Passam dias, meses e estações inteiras, passando, passam. E me vejo em uma esteira, a ser levada pelas circunstâncias, ao invés de fazê-las acontecer, e até isso esqueço, na ciranda do viver. E até disso, não sinto mais sabor.
Acho que aconteceu: o desabor voltou. Não sinto prazer em nada. Esse perigo de não me reconhecer em minha criação, e não me reconhecer como criatura encaixada em nenhuma moldura posta, imposta ou proposta. E os perigos de não me reconhecer se mostram como monstrom do seriado da TV.
Assim, respiro não tão alivida, quando até Adélia diz: "Deus de vez em quando me tira a poesia: olho para uma pedra e vejo uma pedra".  Se para crer passamos pela descrença, descrendo, creio, mesmo que as minhas pedras sejam mais que beleza, alcancem o desastre de rolar montanha abaixo e insistem em atrapalhar todo o caminho.

8 de novembro de 2011

Quero a minha mãe.


Sabe, as mães deveriam durar para sempre. Sempre, para sempre, repito, sempre. Seus olhares cautelosos, sedosos, zelosos, a velar os sonos, os sonhos, os enganos. A cuidar das vestes, dos ciúmes, dos amores.
Mãe que é mãe é assim: patrimônio histórico da humanidade de um só. Paro por um minuto, olho e vejo o dito, analiso minuciosamente cada palavra: é muito egoísmo, meu Deus, prender uma vida a outra, com a pretensão de simplesmente ser servido de seus favores. Mas, é não menino. É bom demais ser mimado, cuidado, zelado. E essa falsa sensação de que o mundo todo piora com a sua ausência.
Passaram dias, meses, anos. Passou, tudo passa, menos a saudade.
Zelosa, percorro em mim as centelhas de vida que escorrem de minhas lembranças. Doces, doces recordações de um tempo em branco e preto, tempo este que colore de azul anil a esperança de dias melhores.
E passeia em mim a essência do amar, mas ainda enraizadas as pretensões infantis de permanência eterna do que se foi, de quem partiu. E se foi, na doce melancolia destes dias de outono, nas folhas caídas, no problemas mal resolvidos, nos assuntos inacabados lá está: seria melhor se estivesse aqui, penso eu, neste engano bom trazido pela sensação de proteção perdida.
O dia começa. O sol nasceu, mas do que vejo, sinto! A audácia dos encantos de permanecer de pé durante todo o dia, e adormecer feliz na noite, no perdão dos sinceros e contritos. E na vida, nos percalços, falto os ensaios das minhas esquetes, nas demoras de minhas perfeições. Mas igual Adélia, tem horas que vem tudo de fora, mas, na certeza da natureza de meus instintos, sei que na hora certa, o certo sei fazer, fazendo bem feito.

"Tinha vantagens não saber do inconsiente.
Vinha tudo de fora!
Maus pensamentos, tentações, desejos...
Contudo, ficar sabendo foi melhor.
Estou mais densa: tenho âncora.
Paro em pé por mais tempo.
De vez em quando, ainda fico oca.
O corpo hostil e Deus bravo, mas passa logo!
Como um pato sabe nadar sem saber,
sei sabendo que na hora "H" nado com desenvoltura...
Guardo sabedorias no almoxarifado".
* Adélia Prado.


30 de outubro de 2011

De volta ao início


Os começos. Passam desapercebidos por mim. Vão, como poeira e vento que passa, na estrada percorrida. Passam os livros iniciados, os programas começados, os passos. Passam, desapercebidos, passam.
Voam tempos, voam pensamentos. Olhar desatento é igual a chuva passageira: só se atém ao que quer, só molha onde não deve.
E assim passa: a palavra, o olhar. Passando, passou, e diante meus olhos, à beira da vida.
Quando vejo, estou no envolto, meio solto, de pontas desatadas.
De risonho, o presente se mostra com futuro, num passado desapercebido, num futuro prometido e cheio de vida, e de possibilidades.
Esse, não passou, graças a Deus!
Mas passou o dia, passou o verão, o inverno, o outono, a primavera, o verão... Passou.
Adormeceu o que devia, acordado está hoje o assunto presumido, do inverno na intenção, no verão exposto, como biquine guardado no fundo da gaveta.
E vejo: a prece apressando a pressa de ter. Ter, muito além de possuir, muito mais que adquirir. No âmago da existência: ser. Em extensões pretendidas, mas esquecido esteve o penar nas sórdidas entrelinhas dos inícios.
Por isso, é preciso voltar. Reorganizar as gavetas, olhar paulatinamente cada vão detalhe de um passado que carrega em si os entremeios de um presente, e as histórias de um futuro completo em saber-se percebido.
Inicio novamente o livro da vida. Dessa vez mais atenta, aos detalhes, aos meus detalhes, não mais em mim, mas dentro de mim.

20 de agosto de 2011

O amor quer falar


O amor quer falar, quer gritar, que ser, mas não pode.
O amor faz esforço, manda flores, faz biquinho.
O amor manda sinais, mas iludido se deitou.
Acalmou-se insone, pesadelos em claro...
O amor adoeceu.
Resistiu, desistiu, tornou a crer.
Persistiu, reagiu, adormeceu...
O amor mandou lembranças, renegou crenças, foi ser feliz!
Ah, o amor...
Nunca esqueceu, aquele que lhe deu alegrias e esperanças...
Por elas o amor voltou, no retrato que passou,
Em branco e preto,
No verde renasceu, em flor desabrochou,
Tornou-se jardim, abandono sem fim, à seus cuidados sim,
Faz favor.

5 de agosto de 2011

Esvaziar-se

As obras de Deus escorrem dentro de mim como a lágrima percorre a face até cair nos lábios. Alcança cada centímetro das expressões decorrentes do sentimento detido ao peito e expressado na temperança do olhar saudoso. Relembro, com graça e maestria, os poemas com que outrora me embriaguei e percebi: essa sou eu.
Passa além de mim essa consciência incompreendida, essa sensação revel ao mundo, constante em querer um pouco mais. Exige-se muito mais, quereres além mar...
Esses desejos de constantes transmutam em fascínio pela arte e do que dela se desprende. E prossigo, no prodigioso labor do poeta: entregar respostas às perguntas da alma. Decerto, a filosofia da alma transcende o natural saber e querer razão, só se compreende peças de uma natureza infinita em possibilidades ñum quebra-cabeças que sempre faltam algumas peças.
E prossigo, num encanto saboroso, maravilhada por essa magia de decifrar os sentimentos que a própria razão desconhece.

"Louvado seja Deus, meu Senhor
Por que meu coração está cortado a lâmina
Mas sorrio no espelho ao que
À revelia de tudo se promete;
Por que sou desgraçado
como um homem tangido para a forca,
Mas me lembro de uma noite na roça
O luar nos legumes e um grilo
Minha sombra na parede.

Louvado sejas por que eu quero pecar
contra o afinal sítio aprazível dos mortos,
Violar as tumbas com o arranhão das unhas,
Mas vejo a tua cabeça pendida
e escuto o galo cantar
Três vezes em meu socorro.

Louvado sejas, porque a vida é horrível
Porque mais é o tempo que eu passo
Recolhendo os despojos
- velho ao fim de uma gerra como uma cabra -
Mas limpo os olhos e o muco de meu nariz
Por um canteiro de grama.

Louvado sejas por que eu quero morrer, mas tenho medo
E insisto em esperar o prometido

Uma vez quando eu era menino
Abri a porta de noite
A horta estava branca de luar
E acreditei, sem nenhum sofrimento:
LOUVADO SEJAS!!!!"
*Bendito, Adélia Prado.

2 de agosto de 2011

Toda palavra sangra


O meu coração sangra.

Chora de saudade de sentimentos que nunca viveu. Tem ânsias de causas, coisas, vivências, próprias de suas inseguras transgressões. Imagina, sonha, viaja por terras desconhecidas, outras paragens, sempre desejadas, sempre perdoadas.
De vez em dor e grão.
Paixão.
Coração que sangra de saudade.
Toda palavra sangra.
Saudade de cor, saudade de amor, sentimentos verdadeiros que brotam como flores em início de primavera: a espera alcança a esperança dos sacrifícios da virtude.
A humanidade reclama, quer fazer valer suas regalias, direitos advindos do livre arbítrio.
O coração ressoa as vicissitudes.
Que quero eu?
Que devo eu?
Que faço eu?
Nada.
Continuo a seguir meu caminho constante:
ora sim,
ora nem tanto,
ora sonhando,
ora acordando,
ora pisando firme,
ora cambaleando...
Ora acertando,
Ora errando.
De hora em hora,
Minuto por minuto,
Constância e relevância
Sacrifícios.
Alegrias! Ah, sim... muitas alegrias!
E ficou.
Alegria ressoou.
Perdoou.
Pacientemente acordou de um sono profundo... profundo como a fé.
Escarneceu sem dó nem piedade a pobre agonia, que saiu desconfiada.
Percorri todos os caminhos,
Cheguei aqui à pé.
Em todo momento, inteira.
Em todo instante, verdadeira.       
Pois é na verdade de minhas demoras que permaneço de pé, sobre toda circunstância, e nenhum medo ou vaidade poderá carregar de mim o sentimento de ser de Deus.
E busco.
E percorro.
As instâncias,
as ânsias,
na calma da alma que espera,
com a paciência de um amante.
Que se delonga,
Como um artista à sua obra.
Que se redime.
Como um povo aos pés da Cruz.

“Buscai primeiro o Reino de Deus e a Sua Justiça.. e tudo o mais vos será acrescentado.”