30 de outubro de 2012

"Todas estas informações têm soberba desimportância científica — como andar de costas." (Manoel de Barros)

Paladar.
Sabor.
O gosto, a fruta.
Mordida, saboreada.
Provada.
Aprovada.
Regada.
Podada.
Cercada.
Cuidada.
Cansada.
Aprisionada.
Diluída, se foi de si.
De si procura, de si pergunta.
Onde foi que esqueceu-se de mim?
Palavras, apenas palavras.
Que juntas, misturadas.
Se coisifica, mistifica.
Conturba-se.
Conluio, de atar nós,
que merecem ser laços.

27 de agosto de 2012

É como um eterno buscar.
Pois desaprendeu a viver vivendo.
Vagueia,
passeia,
nos infinitos das razões.
Vai à caça proeminente,
olhos de águia,
coração de rocha.
Sequestra as emoções,
financia razões alheias.
Sabatina maturidades,
recolhe vaidades,
fantasia orgulhos.
Ajunta dossiês e mais dossiês,
de vergonhas inadmitidas.
E, ao deitar, confessa-se:
a saudade ainda supera tudo isso.
E das vontades de ponto final,
nascem vírgulas maturadas
no doce amargo da espera,
com cobertura de confiança.
Cuida passarinho,
cuida.
Vai que dá tempo,
se esconder do inverno.
Vai, alça vôo no verão de tuas passagens.
Passando estão os teus,
levanta o vôo dos prevenidos.
Não espera não, passarinho,
aguenta firme.
Vai voando que um dia,
um dia passarinho,
um dia,
um dia.

Um brinde

Uma taça.
Só mais um gole, por favor.
A espera alcança.
O que a memória, por zelo, deixou.
Caiu, ruiu.
Voltou em branco e preto.
Flash's de memórias póstumas,
Vivas em mim.
Ou no que desejo.
Seria apego a uma idéia,
Ou seria amor de verdade?
Saberás tu, saberei eu,
Se deveras admitir:
Que tu sem mim,
O tu e o eu,
eu sem mim,
o mim e o teu,
vivos em nós.

10 de agosto de 2012

Eu disse que te esperava.
Tô “perando”.
Tá ouvindo?
Tô esperando...
...
Será que demora?
Ou será que você esperaria por mim?

10 de julho de 2012

Bem mais


As paredes me sufocam, me tiram o ar.
As luzes apagam-se em desobediência às minhas ordens, que viraram súplicas, que tornaram-se pranto.
O tintilar de uma temporada inteira, as dores, os rugidos.
Sobram culpas, sobram motivos, mas falta ar.
As narinas buscam o que os pulmões desejam, e é meio consolo pensar em bondade.
Meio má, meio boa. O meio partiu-se ao meio e retornou ao seu sentido original: a demasiada escravidão do agradar.
Está tudo pelo meio, junto, misturado, e perdeu-se a estância, o estado, o trajeto.
Avisto o mar, revejo o que jamais fui, sinto pelo que o sonho parece verdade e esqueci de acordar.
Estico-me sem alcançar, as palavras que engasgam em meus medos, e tropeçam, mais uma vez, em meu andar desavisado, em meu amar errado.
Mas, o que seria o certo?
Fico confabulando sobre o indecifrável, buscando respostas as minhas intensas perguntas, aos sentidos que insistem em se impor a todos os acontecimentos.
E confabulo.
Ao horizonte, as ondas, ora mansas, ora intensas, sonorizam a paisagem.
Mais do que eu vejo, sejam todas as coisas.
Mais do que o que sinto, seja tudo.
Mais do que a verdade que a vida insiste em espalmar a minha face, seja a minha vida.
Mais que a realidade que se mostra, seja a minha verdade.

23 de junho de 2012

A mulher que muito amou, amanheceu.

Lucas 7, 47 Por isso te digo: seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor. ... Tua fé te salvou; vai em paz.



Fico pensando no dia seguinte daquela mulher. O que a moveria a partir de então? O que seria de seus amores, desejos, paixões? Até o encontro, seus movimentos eram certos, pois dominava a arte de encenar a própria vida. Com controle sobre os seus sentimentos, não sentia, e ignorada como era, ignorava-se, na surdina de si mesma. Seus olhos, sempre precipitados ao chão, encontravam o vaidoso orgulho de suas vergonhas. Queria, muito queria encerrar-se na multidão de mulheres donas de casa, queridas e amadas pelos seus. Mas bem sabia que o despudor de seus caminhos encontravam a solidão do preconceito. Passou a noite, amanheceu lindo dia, mas não sabia mais o que fazer, pois seus antigos afazeres não traduziam mais a beleza de seus olhos. Trazia consigo os perdões de uma multidão, em um único corpo que,  enfim, lhe pertencia, depois de muito tempo. Trazia em seu peito o amor de um mundo inteiro, e a felicidade de uma família completa, e seu vazio preenchia-se da paz que acometia-se seus encantos. Os olhos, serenos e a face lisa, linda. Sua alma, desnuda, como homem algum jamais a havia despido. Por fim, não mais encenou ou precipitou-se, aguardou a hora certa, o momento certo, e foi, como sempre sonhou: ela mesma.